LUZ, CÂMERA E OBJETO – O momento atual da fotografia

A fotografia, como conhecemos hoje, não surgiu pronta. Ela é resultado de uma longa evolução ao longo das últimas décadas, incorporando avanços de diferentes áreas da ciência.

Seu surgimento oficial ocorreu em 1826, com o francês Joseph Nicéphore Niépce. No entanto, é mais adequado dizer que a fotografia foi “descoberta”, já que ela resulta da combinação de conhecimentos prévios. Um dos principais fundamentos é a câmera escura de orifício, conhecida desde o Renascimento — e há registros de que princípios semelhantes já eram observados por Aristóteles na Grécia Antiga. Imagine que você está em uma sala sem janelas ou portas. Ao fazer um pequeno buraco em um dos lados dessa sala, a luz que vai entrar por esse orifício vai projetar a imagem que está do outro lado dessa parede no fundo da sala. Porém, essa imagem vai estar de ponta cabeça. Esse é o princípio da câmara escura de orifício.

câmara escura de orifício.

Além disso, houve o desenvolvimento de substâncias químicas sensíveis à luz, capazes de reagir e se transformar quando expostas. Somam-se a isso os avanços na ótica, que permitiram direcionar e concentrar os raios de luz dentro da câmera. A união desses elementos possibilitou o registro de imagens em diferentes superfícies, como placas de cobre, vidro, papel e, posteriormente, o filme fotográfico — um marco que transformou a arte e a forma como registramos a história.

Atualmente, vivemos a era da fotografia digital. Diferente do processo químico tradicional, as imagens agora são capturadas por sensores fotográficos, que convertem a luz em sinais elétricos. Esses sinais são transformados em dados numéricos e armazenados em dispositivos como cartões de memória. Em outras palavras, as imagens digitais nada mais são do que informações codificadas que podem ser visualizadas em diversos formatos.

Esse cenário traz características importantes. A fotografia se tornou uma forma de comunicação extremamente poderosa, amplamente acessível e instantânea. Com smartphones e redes sociais, uma imagem pode ser capturada e compartilhada com milhares de pessoas em questão de minutos. Nunca se produziu e foi colocado em circulação tantas imagens na história da humanidade.

Por outro lado, esse aumento na quantidade de imagens não significa, necessariamente, aumento de qualidade. Até a década de 1990, fotografar exigia conhecimento técnico. As câmeras eram complexas, o número de fotos era limitado pelo filme e o custo de revelação incentivava o estudo e o cuidado na captura das imagens.

Hoje, com câmeras digitais — especialmente em celulares —, grande parte das decisões técnicas é automatizada. Isso permite que qualquer pessoa fotografe, mas também contribui para a produção de imagens com menor preocupação estética e técnica. Assim, vivemos um momento em que se fotografa muito, mas nem sempre com o mesmo nível de conhecimento e intenção.

As três grandes revoluções da Fotografia

A popularização da fotografia digital nos leva a um ponto importante: estamos vivendo a terceira grande revolução da fotografia. Esse momento é marcado pelo acesso facilitado a equipamentos capazes de registrar imagens, algo que impacta diretamente a construção da memória coletiva e das histórias pessoais.

Apesar das críticas à produção massiva de imagens, há mais aspectos positivos do que negativos. Hoje, qualquer pessoa pode registrar sua própria história — algo que, no passado, era privilégio de poucos.

Antes da fotografia, apenas pessoas com recursos financeiros podiam ter seus retratos feitos por meio de pinturas. Com o surgimento da fotografia, o processo foi simplificado, mas ainda não era acessível. Os equipamentos eram caros e exigiam conhecimento técnico, tanto de iluminação quanto de processos químicos, como a preparação de placas fotográficas.

Esse alto custo pode ser observado em representações culturais, como no filme brasileiro Canudos (1996), no qual um personagem troca cabeças de gado por uma única fotografia — evidenciando o valor desse tipo de registro na época.

Após ter sucesso com os seus experimentos fotográficos em 1826, Joseph Nicéphore Niépce foi procurado por Louis Daguerre, que lhe propôs uma parceria para transformar o produto em algo comercialmente viável. Em 1839, Daguerre apresentou oficialmente para a Academia Francesa de Ciências a sua invenção (Niépce havia falecido em 1833), que foi batizada de Daguerreotipo. A câmera, que hoje seria confundida com um caixote de madeira, foi a primeira máquina a conseguir registrar com perfeição surpreendente uma imagem fotográfica. Essa foi a primeira grande revolução da fotografia.

O daguerreotipo se tornou extremamente popular por um acontecimento peculiar. Daguerre forneceu a patente da invenção para o a Academia Francesa de Ciências em troca de uma pensão vitalícia do governo francês. Por sua vez a Academia Francesa de Ciências tornou a patente de domínio público. Qualquer pessoa poderia construir um daguerreotipo e utilizar os processos químicos e físicos do equipamento sem se preocupar com a questão de patente ou pagar pelo uso desse conhecimento. Com isso o daguerreotipo se espalhou pelo mundo. Outros processos fotográficos foram desenvolvidos na época e eram até melhores do que o daguerreotipo, como o calótipo criado por Fox Talbot, mas eram processos patenteados e muito mais caros. Uma prova absoluta da revolução causada pelo daguerreotipo é que em 8 de janeiro de 1840 um exemplar da câmera desembarcava no Rio de Janeiro, apenas alguns meses depois da invenção ter sido apresentada em Paris.

Agora, todos poderiam ter um retrato ou produzir fotografias. Mas, ainda era um processo caro e complicado. Embora o daguerreotipo fosse livre de patentes, os fotógrafos, uma profissão emergente, cobravam caro por seus serviços, pois possuíam custos elevados. Mas, isso viria a mudar.

A segunda grande revolução da fotografia aconteceu em 1888, quando George Eastman, fundador da Kodak, lançou o filme de rolo junto com a câmera Kodak. Esse equipamento já vinha carregado com um filme de rolo para 100 fotos. Após o uso, o consumidor enviava a câmera para a empresa, que revelava as imagens, recarregava o filme e devolvia tudo pronto.

Embora esse processo pareça trabalhoso hoje, na época foi revolucionário. Pela primeira vez, não era necessário contratar um fotógrafo profissional. Qualquer pessoa podia registrar seu cotidiano, criando o que chamamos de “memória da vida privada”.

O slogan da Kodak traduzia bem essa proposta: “Você aperta o botão, nós fazemos o resto”.

Após esse avanço, a tecnologia do filme fotográfico evoluiu lentamente, com melhorias na qualidade, sensibilidade e a introdução da fotografia colorida. No entanto, a grande mudança seguinte só viria na década de 1990, com a fotografia digital.

Curiosamente, a própria Kodak teve papel fundamental nesse avanço. Em 1975, o engenheiro Steven Sasson desenvolveu a primeira câmera digital. Apesar da inovação, a empresa não investiu na ideia, acreditando que a baixa qualidade das imagens não atrairia consumidores.

Esse erro estratégico custou caro. A fotografia digital se popularizou rapidamente, e a Kodak, que antes liderava o mercado, não conseguiu se adaptar a tempo, entrando em declínio. Um belo exemplo de como não olhar para o futuro e para o desenvolvimento da tecnologia pode custar muito caro, até mesmo para uma grande empresa.

A terceira revolução da fotografia aconteceu justamente com a fotografia digital. Embora a fotografia com filme fosse acessível há muitas pessoas, ela ainda possuía um custo de compra do filme e depois o custo do processo de revelação. Acima de tudo havia a limitação da quantidade de fotogramas em cada filme fotográfico, que podiam conter 12, 24 ou 36 poses.

O digital chegou com vantagens visíveis ao processo anterior. Os cartões de memória podiam armazenar muitas fotos. A imagem era vista instantaneamente no LCD da câmera. Imagens poderiam ser apagadas e era necessário apenas um computador para armazenar sua produção. As primeiras câmeras possuíam uma qualidade de imagem bem inferior ao filme fotográfico, mas a tecnologia avançou de forma rápida e constante. Em alguns anos a qualidade superou os antigos filmes fotográficos e a quantidade de câmeras disponíveis cresceu em uma proporção geométrica.

Nos dias de hoje praticamente todas as pessoas possuem uma câmera fotográfica em seus smartphones e produzem diariamente milhões de imagens. Registros de nossa memória pessoal e memória familiar. As próximas gerações terão um vasto material para analisar o nosso cotidiano, nossos hábitos e nossas visões de mundo.

Alguns afirmam que a IA (Inteligência Artificial) será uma quarta revolução na fotografia. Mas, acho que ainda é cedo para especular e esse será o tema de um outro artigo.

Esse texto, um pouco longo, é o primeiro de uma série de artigos sobre fotografia básica. Na realidade é o primeiro capítulo de um e-book de fotografia que estou escrevendo e vou usar o blog para organizar as ideias. Espero postar um capítulo por semana todas as sextas feiras. Fiquem a vontade para perguntar e trazer contribuições.

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