Gosto Musical: Por que não existe música boa ou ruim e como ele muda com o tempo

A discussão sobre gosto musical é, ao mesmo tempo, fascinante e controversa. Existe uma tendência quase universal de classificar músicas entre “boas” e “ruins”, mas, sob uma análise mais cuidadosa, essa divisão revela-se profundamente subjetiva. Em termos de percepção auditiva e cognição musical, o que frequentemente chamamos de “qualidade” está diretamente relacionado ao grau de familiaridade, identificação emocional e repertório cultural de cada indivíduo. Assim, o que é considerado “bom” costuma ser aquilo que ressoa com nossas experiências pessoais, enquanto o “ruim” tende a ser simplesmente aquilo com o qual não criamos conexão. Esse fenômeno, longe de ser um paradoxo, evidencia a complexidade do comportamento humano diante da música e reforça a ideia de que o gosto musical não apenas pode, mas deve ser discutido como um elemento dinâmico da cultura.

Minha trajetória pessoal ilustra bem essa construção. Desde a infância, fui exposto a uma ampla diversidade sonora dentro de casa. Minha mãe possuía um gosto musical marcadamente eclético, transitando entre o pop internacional, trilhas sonoras de novelas e a música dançante das décadas de 1970 e 1980, o que proporcionava um ambiente rico em diferentes estruturas harmônicas, arranjos e estéticas de produção. Meu pai, por outro lado, tinha uma preferência mais definida pela música sertaneja das décadas de 1980 e 1990, caracterizada por melodias marcantes e narrativas líricas bastante diretas. Essa convivência com múltiplos estilos, somada à influência constante do rádio, contribuiu para a formação de um repertório auditivo diversificado desde cedo.

Na adolescência, por volta dos 12 anos, desenvolvi um interesse mais específico pelo rock e pelo heavy metal — gêneros que apresentam maior complexidade rítmica, uso intensivo de distorção e estruturas musicais frequentemente mais elaboradas. Essa mudança representou um contraste significativo dentro do ambiente familiar, especialmente considerando a limitação de recursos, como a presença de apenas um aparelho de som compartilhado. Já no período universitário, novas influências ampliaram ainda mais meu horizonte musical, incluindo o rock progressivo — com suas composições extensas, variações de andamento e experimentações — e o rock nacional dos anos 1980, que carrega forte carga sociocultural e lírica. Como resultado, meu gosto musical passou por um processo contínuo de transformação, evidenciando que a escuta musical é, essencialmente, um processo de construção e amadurecimento.

Foi a partir dessa reflexão que surgiu a ideia para um vídeo recente em meu canal no YouTube: revisitar bandas que, em um primeiro contato, causaram rejeição, mas que, anos depois, passaram a ser apreciadas sob uma nova perspectiva. Esse fenômeno pode ser explicado, em parte, pelo chamado “efeito de mera exposição”, no qual a repetição e a familiaridade aumentam a aceitação, além do desenvolvimento do ouvido crítico, que passa a perceber nuances antes ignoradas — como timbre, dinâmica, texturas sonoras e complexidade composicional. Outro fator determinante é a influência social: ao longo da vida, somos apresentados a novas referências por pessoas que admiramos ou com quem estabelecemos vínculos significativos. Essa mediação afetiva muitas vezes reduz preconceitos e amplia nossa disposição para experimentar o novo.

Diante disso, torna-se cada vez mais delicado estabelecer julgamentos absolutos sobre o que seria “bom” ou “ruim” na música. Observa-se, especialmente em ambientes digitais, uma tendência à crítica contundente de determinados gêneros, como o sertanejo contemporâneo ou o funk. Embora seja natural que nossas preferências pessoais influenciem nossa avaliação, é importante reconhecer que a música também cumpre funções sociais, emocionais e culturais fundamentais. Se determinada produção musical é capaz de gerar identificação, prazer e pertencimento para um grande número de pessoas, sua relevância não pode ser descartada sob critérios puramente individuais ou técnicos.

Assim, a conclusão a que chego hoje é que a música deve ser compreendida menos como um objeto de julgamento e mais como um veículo de experiência. Não se trata apenas de analisar estruturas harmônicas, qualidade de produção ou virtuosismo técnico — ainda que esses elementos tenham seu valor —, mas de reconhecer o impacto subjetivo que a música exerce. Em última instância, existem músicas que nos tocam e outras que não, e essa diferença não invalida nenhuma delas. Aceitar essa diversidade de experiências é essencial para uma convivência mais respeitosa e enriquecedora no universo artístico. Afinal, a arte existe justamente para provocar emoções, criar conexões e, sobretudo, permitir que cada indivíduo encontre, à sua maneira, aquilo que faz sentido em sua própria jornada.

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